TER um filho ou SER mãe?



Muito diferente do que ter um filho é ser mãe. O projeto de TER um filho, desvinculado de SER mãe, se pauta nos valores atuais da sociedade da supervalorização do trabalho, das aparências e do consumo, sustentada pelos adultos que não querem crescer e só pensam no seu direito de serem felizes. E a aparência da felicidade para as mulheres não raramente envolve a imagem de um ser competente, com carreira de sucesso, polivalente e independente de tudo e de todos. Envolvimentos afetivos aparecem para completar esta imagem, mas sem necessariamente indicar a constituição de vínculos profundos e permanentes. Os esforços destinados aos filhos são concentrados em oferecer recompensas materiais e a formá-los como mão-de-obra qualificada para o mercado. Quem tem um filho mas não se digna a ser mãe cria um filho órfão de mãe viva, ainda que esta criança more sob o mesmo teto. Sergio Sinay, pesquisador argentino, já sinaliza algumas destas análises no seu livro “Sociedade dos filhos órfãos”.


Delegar a educação dos seus filhos para a escola, para a igreja, para os avós ou para outros cuidadores sinaliza um abandono afetivo que muitas vezes pode ser maquiado com recompensas materiais exageradas, formação escolar e profissional de excelência e com experiências luxuosas ou de última geração tecnológica, experiências estas muito facilmente esvaziadas de presença, de vida e de propósito (a exemplo de: férias luxuosas em resorts as quais proporcionam o afastamento familiar com seus recreacionistas-babás; passeios constantes em shopping e supermercados - catedrais de consumo - que de vivência afetiva estão esvaziados; acesso a celulares e a dispositivos de última geração que conectam as crianças ao vazio). Esta tentativa de substituição sedutora do afetivo pelo material informa à criança que o valor dela está no que ela TEM (carreira, coisas, dinheiro, aparência) sem dar a ela a possibilidade de descobrir quem ela é. Neste contexto acaba sendo compatível e até dissimuladamente justificável desejar TER um filho mas nem sempre desejar SER mãe.


Ser mãe, no entanto, trata-se de algo muito diferente do que ter um filho. Contempla aceitar a confrontação diária de suas incapacidades. Envolve ter um espelho perambulando na sua casa lhe lembrando o tempo todo das suas limitações e também da sua existência afetiva e espiritual. É amar como nunca amou antes mas também temer e preocupar-se. Afinal agora existe um OUTRO na minha existência dependente de mim.

Os filhos - e não os netos, alunos ou filho dos outros – são herança de Deus para os seus pais (Salmos 127.3). Tenho entendido como mãe que eles se caracterizam como herança por serem instrumentos preciosos e dóceis a serem usados para Deus trabalhar na vida dos pais. São usados para nos mostrar quão falhos somos e quão limitados também e, portanto, dependentes de Deus. E, portanto os nossos filhos nos colocam mais perto de Deus e de seus propósitos se nos apresentamos sensíveis e com o coração ensinável.


Quantos de nós pais não voltamos a frequentar uma igreja ou a buscar um relacionamento com Deus pensando em nossos filhos? Quantos não se entregam e reconhecem seus caminhos tortuosos quando veem a vida de seus filhos? Quantos de nós pais não permitimos o trabalhar profundo de Deus somente ao enfrentarmos dificuldades, adoecimentos, sofrimentos, conflitos com os nossos filhos ou na vida deles?


O confronto diário com o que de melhor e de mais difícil nossos filhos apresentam nos coloca diante da verdade de que nada controlamos, de que somos desobedientes como eles, de que fazemos o mal que não queremos e que não conseguimos fazer o bem que queremos, nem mesmo àqueles que moraram um dia dentro da nossa barriga. Nossos filhos nos confrontam com sonhos enterrados, com a alegria esquecida, com as estruturas de orgulho, com nossa verdadeira identidade e com a nossa condição de pecadores que somos. Também podem nos levar a ficar entregues e quebrantados na presença de Deus, o propósito maior.


Ser mãe, portanto, remete a um lugar de entrega e de humilhação diante de Deus, reconhecendo que nada sou e nada posso sem a intervenção e a capacitação do Espírito Santo. Entendo que meus filhos são herança de Deus na minha vida, mas que eles não me pertencem pois são do Senhor. No entanto, compreendo que Deus os confiou aos meus cuidados e que Ele mesmo me capacita a acompanhá-los no tremendo, desafiante e mais difícil projeto que se pode ter: o de ser guardiã de um discípulo de Jesus em treinamento e de dar a ele uma referência de fé, de família e de que ele é antes de filho amado da mamãe, filho amado de Deus.


Nesta caminhada há que se cuidar com distrações e seduções que querem tornar pais e filhos amigos e nada mais. Quando pais se tornam amigos, eles saem da relação que ensina aos discípulos em treinamento a honra ao pai e à mãe e a Deus. E assim, as crianças tornam-se filhos de estimação e ficam órfãos, pois perdem os seus pais como referência afetiva, tanto dos limites como de aceitação. Embora pareça paradoxal, os filhos de estimação por não terem limites e não poderem confiar nos seus pais como uma referência segura vivenciam sentimentos de rejeição e abandono.


Também precisamos estar alertas com a idolatria ao filho perfeito ou ao projeto de mãe perfeita. Embora acompanhar os filhos seja propósito de Deus na vida das mães isso não é mais importante do que a relação com Deus, propósito da nossa vida e existência. Da mesma forma os filhos não podem substituir ou concorrer na relação entre o homem e a mulher, entre marido e esposa. Filhos precisam de pai e de mãe, um não consegue eliminar a necessidade do outro. Se tem um lugar em que não há possibilidade de substituição este lugar é a relação de mãe e filhos e de pais e filhos.


Complexo, não é? Por isso precisamos recorrer Aquele Único que pode nos dar sabedoria. Vale relembrar que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Provérbios 9.10). A mulher que encontra a sabedoria edifica a sua casa, mas a tola a destrói com as próprias mãos (Provérbios 14.1).


O que você tem feito com a herança de Deus dentro da sua família?


Todos, pais e mães, precisamos buscar a Deus para não destruirmos nossa casa com as próprias mãos e para que os propósitos se cumpram sobre as nossas vidas e a vida dos nossos filhos. Vamos juntos como corpo de Cristo até Aquele que nos sustenta e que guarda nossos filhos, inclusive os guarda das feridas que nós mesmos podemos causar.


É tempo de nos juntarmos: pais, filhos e o Espírito Santo.

Que Deus cumpra seus propósitos em nossas famílias.


Lis Soboll

Esposa de Danyel Soboll

Mãe de Gabriela (7) e Davi (4)

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© Por CLARICE EBERT. Psicologia (CRP 08/14038).

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