O ESTADO DA PAIXÃO - A ATRAÇÃO PELO PARCEIRO IDEALIZADO!

Geralmente o que aproxima duas pessoas para o início de um relacionamento é a paixão (o amor somente emerge mais adiante). O apaixonar-se é um sentimento incrível e incomparável. Segundo Sanford [1], a paixão é uma atração irresistível por alguém e uma experiência maravilhosa de abertura aos assuntos do coração. Geralmente é por meio da paixão que um casal se conecta.


Sanford explica que no relacionamento entre duas pessoas ocorre uma atração num âmbito consciente e inconsciente. No âmbito consciente: ocorre uma atração quando se veem, se olham e chamam a atenção um do outro. No âmbito inconsciente: ocorre uma forte atração entre os dois que é resultado de uma projeção de uma imagem positiva idealizada. Por mais que se sinta atração pela atenção e o visual do outro, não é a atração mais forte. Pois a atração que ocorre no âmbito inconsciente é a mais poderosa. Na idealização, o outro é perfeitamente capaz de proporcionar a felicidade e de atender os anseios mais profundos que possa haver numa relação a dois. Ocorre então a sensação de se estar apaixonado por aquela pessoa. Acontece uma atração irresistível, um forte impulso de um para com o outro, como um imã. [2]


Para Anton [3], apaixonar-se é encontrar alguém que revela, informalmente por meio de micro sinais, que tem algo daquilo que faz parte de nossa essência mais íntima. Algo da nossa identidade, personalidade, anseios, desejos, necessidades etc. A autora explica que o outro idealizado, a partir dos referenciais pessoais internos, é a base da paixão e o propulsor da escolha do cônjuge.


Os referenciais internos, numa ótica sistêmica, foram construídos ao logo de todo desenvolvimento, especialmente na companhia da família de origem. A principal influência proveio dos pais, que em sua vivência de casal, bem como em suas posturas afetivas e comportamentais, bem como seus valores, mitos e crenças, forneceram os elementos para a constituição de um referencial interno, que se fará expressivamente presente na conexão com o apaixonado. A escolha do outro perpassa por esse processo. Dessa forma, pode-se dizer que a escolha de alguém para partilhar a vida dificilmente será aleatória. Ao contrário, é conduzida, com altíssima probabilidade, por esse processo interno que ocorre em ambos os envolvidos, que reverbera numa atração, podendo ser irresistível, e/ou até mesmo explosiva. Dessa forma, quando nos casamos apaixonados, não o fazemos com o outro real, mas com o outro idealizado a partir dos nossos referenciais internos. Entramos no matrimônio assumindo dois tipos de pactos [4], um expresso e outro secreto.


No pacto expresso assumimos socialmente uma parceria no matrimônio com a outra pessoa, diante da família, testemunhas, lei e sociedade, em que expressamos os votos de fidelidade, compromisso e amor incondicional. Promete-se estar juntos “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza etc”.


Já no pacto secreto assumimos internamente, de forma inconsciente, uma parceria com o outro idealizado, nosso parceiro invisível. Esse parceiro, de alguma forma, foi idealizado e projetado na pessoa com quem escolhemos nos casar. A escolha por essa pessoa específica, com quem se está casando, ocorre por ela se encaixar ideologicamente (“aparentemente”) com o secreto parceiro invisível. O “secreto” é a bagagem psíquica das idealizações que cada um traz para o relacionamento e que é constituída ao longo da vida e seu desenvolvimento ocorre por inúmeras influências (biológicas, fisiológicas, sociais, culturais, ecológicas, religiosas e especialmente familiares). O “secreto” de cada um tem a ver com a individualidade de cada pessoa e que interfere e define a escolha do parceiro conjugal. A identificação com essa ou aquela pessoa, a quem se propõe vincular no casamento, tem a ver com esse aspecto. Identificar-se com alguém é encontrar-se, de alguma forma, nesse alguém.


No pacto expresso discursamos que estamos casando para fazer o outro feliz, porque existe um amor apaixonado, verdadeiro etc. No entanto, trazemos internamente, no nosso pacto secreto, as expectativas de felicidade que se tem a respeito do casamento e transferimos para o outro a tarefa da realização dessas expectativas. Acredita-se que o outro irá cumprir os desejos idealizados de felicidade na relação a dois. É assim que se sentem os apaixonados e por mais que seja uma experiência extraordinária, ainda não é amor verdadeiro.


Sanford [5] afirma que os relacionamentos baseados exclusivamente na paixão nunca duram, sendo que viver um estado de paixão é muito diferente do verdadeiro amor recíproco. Segundo ele


"O relacionamento entre duas pessoas apaixonadas simplesmente não resiste, quando submetido à prova ou teste da realidade de um relacionamento humano verdadeiro. Ele só consegue sobreviver num mundo de fantasia, em que o relacionamento não é testado no desgaste cotidiano da vida real. Quando vivem juntos nas condições humanas do dia-a-dia, ‘João e Maria’, se tornam reais um para o outro como seres humanos imperfeitos e atuais. Quanto mais reais vão se tornando um para o outro como pessoas, menos possibilidade há de as imagens mágicas e fascinantes provenientes do inconsciente permaneçam projetadas sobre eles. Bem depressa o estado de apaixonado se esvai (...)”. (p.28).


Apaixonar-se é um sentimento maravilhoso, porém para que o casal realmente experimente o sentimento do amor é preciso amadurecer na convivência. Apaixonar-se por alguém, significa estar atraído por uma imagem que esse alguém reflete de algo que está registrado em nosso ser. Por isso, em certo sentido nos apaixonamos por nós mesmos e não pela outra pessoa. Isso quer dizer que de fato, nos encontramos num estado profundamente egoísta e por mais que possa haver juras românticas de amor, o verdadeiro amor ainda não aconteceu. Para amar é preciso conhecer a pessoa real com quem se casou e não se fixar na pessoal idealizada. Mas, conhecer de fato o outro com quem se casou pode ser uma experiência desinteressante e mesmo decepcionante. Sanford [6] explica isso da seguinte forma:


“O fato de o estado de apaixonados não poder suportar o desgaste da vida diária não corresponde ao que desejamos ouvir, pelo menos não nos dias de hoje (...), que descreve o estar apaixonado como meta do relacionamento entre os sexos, e expõe isto aos nossos olhos nos anúncios de televisão. (...) Por causa disso, muitos preferem estar passando de uma pessoa para outra, sempre procurando o relacionamento máximo, melhor possível, deixando sempre o relacionamento que está mantendo quando (...) a paixão termina. É evidente que com as raízes tão pouco profundas, não pode desenvolver-se nenhum amor real e permanente”. (...) “O amor real começa somente quando uma pessoa chega a conhecer a outra, para quem ele ou ela é realmente um ser humano, e quando começa a amar esse ser humano e a preocupar-se com ele. (...) Ser capaz de um amor real significa amadurecer, estimulando as expectativas realistas em relação às outras pessoas. Significa aceitar a responsabilidade por nossa própria felicidade ou infelicidade, sem esperar que a outra pessoa nos faça feliz e sem censurá-la como se fosse responsável pelas nossas más disposições ou frustrações. Naturalmente, isso torna o relacionamento real um problema difícil, em favor do qual devemos trabalhar; mas felizmente, as compensações existem, porque somente através desse caminho nossa capacidade de amar amadurece” (p.29-30).


Desenvolver a capacidade de amar e de construir um amor verdadeiro abre a possibilidade de experimentar a percepção do outro real. Significa crescer como pessoa e não mais ficar à mercê de projeções e idealizações inconscientes que não contribuem para uma parceria conjugal satisfatória. Porque a felicidade somente poderá ser vivenciada quando se tem intimidade com o outro real com quem casamos, não com o idealizado.


Portanto, para que o relacionamento evolua e não se rompa, quando a paixão enfraquece na convivência da vida real, é preciso assumir responsabilidades de amadurecimento. Dessa forma, o casamento se torna uma importante via para que as pessoas envolvidas possam crescer e amadurecer relacionalmente.



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NOTAS


[1] SANFORD, John A. (1980). Os Parceiros Invisíveis. 5ª Ed. São Paulo: Paulus.


[2] Idem.


[3] ANTON, Iara Camaratta. (2001). Homem e Mulher: seus vínculos secretos. Porto Alegre: Artmed.


[4] SCHOENARDIE, Vera Liane P. Schoenardie. O Divórcio e o Recasamento. Texto não publicado.


[5] Sanford, John A. (1980). Os Parceiros Invisíveis. 5ª Ed. São Paulo: Paulus, p.28.


[6] Sanford, John A. (1980). Os Parceiros Invisíveis. 5ª Ed. São Paulo: Paulus, p.29-30.



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© Por CLARICE EBERT. Psicologia (CRP 08/14038).

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